16 de julho de 2013
NA ESTRADA




Pra ler, ouvindo: 


No carro, 
voltando pra casa,
em boa companhia. 
Cansados, 
em silêncio, 
era entardecer. 


Engraçado. O silêncio pode ser íntimo ou forasteiro, confortável ou perturbador. Não é bom ou ruim por natureza...
Ali na estrada, chão após chão, horizonte e cheiro de asfalto, o silêncio nos permitiu conversas reais e intensas. Intimidade e conforto em sua forma mais presente, contemplativa.

[ estávamos emudecidos por fora, verbo vivo por dentro ].


Olhávamos para os contornos das árvores secas de inverno, que pregadas nos vales verdes, encostavam-se na Rodovia. Reparávamos em todas as cores que o céu desenhava: espetáculo que impressiona com seus roxos, azuis, alaranjados e mais, mais, mais...

[ estávamos emudecidos pelos colos, abraços, carinhos e risos ].





De vez em quando alguém dizia: "Que lindo isso" e nesse consentimento, não sei se passamos minutos ou horas, mas tanto faz.
Naquele cenário tão cotidiano, voltando de uma viagem que poderia ser comum, experimentei mais uma vez nossa sintonia, pois estávamos juntos vendo algo além.

[ estávamos emudecidos pelo encontro ].


Recordo este instante, nomeio nosso “além”.
Sinto que estávamos aproveitando ao máximo esse espaço onde podíamos simplesmente ser. Sentíamos o afeto gratuito que nos preenche, independente do que temos a oferecer, do que dizemos, do que fazemos...

[ estávamos emudecidos pela certeza ].

De que nos conhecemos sem julgamentos, de que podemos compartilhar segredos, pensamentos profundos ou bobagens triviais com a mesma confiança. De que podemos inclusive, nos entregar de alma sem perder nenhum pedaço.


[ estávamos emudecidos pela liberdade ].



Tantas pessoas já olharam pra nós com pressa demais, tentaram nos ler como se fôssemos uma tirinha de gibi de três quadros... Que fiquem com suas construções rasas e idéias insossas, enquanto a vida segue fervendo de sabor. A verdade é que somos seres inteiros, independente da velocidade dos olhares, independente dos recortes que fazem da gente.

[ estávamos emudecidos pela simplicidade desconcertante da vida ]. 



Para Alexandre, Catarina e Beatriz.