4 de fevereiro de 2013
Fado e Vela




Num sobressalto, a vela sobre a mesa de madeira quis ser a lâmpada lá do alto do mezanino.
Já não queria mais estar presa à superfície plana: almejava, enfim, contato com a eletricidade que parecia tão surreal e mais que tudo, queria se ver livre da sensação de ser a última escapatória: nas noites chuvosas, quando acaba a luz da cidade, então as pessoas recorrem a acendê-la, brincam de adivinhar sombras nas paredes e passado algum tempo, ainda reclamam da pouca luz que ofusca. Pois era só a luz voltar para que a deixassem no seu posto de destino irrevogável: prisão à superfície.
Estava decidida: “Quero ser lâmpada”.
Desde então se tornou cera vazia, cera triste... Escorrendo tão devagar, quase falida.
Eis que a lâmpada queimou e jogaram-na no lixo, despudoramente. Fado.
A vela se sentiu ruborizada de tanto disparate: enquanto passou dias a fio negando sua natureza, não pôde perceber que suas marcas de cera ficariam para sempre, grudadas na madeira. 


(publicado na Revista Minguante - 2008)