26 de outubro de 2013
Incontáveis problemas que você me causou

cena do filme "Tudo acontece em Elizabethtown" (2005)


Não sei, sinceramente, o que a natureza tinha na cabeça quando criou você.
Você é escandalosamente bonita de chinelo e camiseta larga. Você é absolutamente natural e exclusiva. Seus traços não me lembram ninguém, não dá pra fazer nenhuma referência a você, nenhuminha. Veja só quantos problemas você trouxe pra minha vida, estranho ser humano: se me perguntarem, nunca vou conseguir explicar quem você é, nem comparar recorrendo ao "ela se parece com...", você NÃO SE PARECE COM NADA, dá pra acreditar?
Eu queimo de raiva porque agora fico procurando a dobra dos seus olhos em todos os olhos por aí e nenhum deles me emociona o suficiente.
Você não gosta de pintar boca, nem de colorir os olhos e com essa pomposa simplicidade tão sua, seus traços ficaram definitivamente marcados em mim. Deve ser porque você se basta. As outras pessoas se poluem com tanta informação que não consigo enxergar elas direito. Você se mostra. Se expõe. Se é.
Tem outra coisa que me desconcerta: isso de você sorrir apenas quando acha graça. Você nem faz de propósito - pra parecer durona - seu riso é algo a ser provocado. O problema é que comecei a penar pra conseguir um riso seu, pra mim. E agora acho todo mundo meio plastificado, meio pronto, previsível.

A coisa horrível de ter conhecido você é essa: o resto do mundo todo ficou menos interessante. Um tédio. 



7 de outubro de 2013
5 MÚSICAS BASEADAS EM LIVROS



Muitos intérpretes e compositores se inspiram em obras literárias para fazer suas músicas. Aqui compartilho cinco (das minhas preferidas) canções baseadas em livros. Escolhi estas por gostar muito das obras e/ou das bandas. Espero que gostem!

5. Lord of the Rings - BLIND GUARDIAN



Esta música da banda alemã BLIND GUARDIAN foi baseada no livro "O Senhor dos Anéis" (pt) escrito pelo escritorprofessor e filólogo britânico J. R. R. Tolkien. Esta é a obra da minha vida e essa canção marcou minha adolescência... Memória afetiva total! Cada vez que ouço recordo das batalhas, da narrativa, enfim... Épico.

VIVA LOTR!  
Album: Tales From the Twilight World (1990)
Obra: Lord of the Rings (J. R. R. Tolkien, 1954)

Ouça:

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4. Sobre as folhas (Ou O Barão nas árvores) - CORDEL DO FOGO ENCANTADO

A banda pernambucana se inspirou na história de de Cosme Chuvasco de Rondó - o filho primogênito do barão de Rondó que, em 15 de junho de 1767 revolta-se contra seus pais e sobe às árvores, para de lá nunca mais descer. É desse livro a clássica frase: "aquele que pretende observar bem a terra deve manter a necessária distância".
"Trecho da música:
Contarei a história do barão
Que comia na mesa com seu pai
Era herdeiro primeiro dos currais
Mas gritou num jantar
"Não quero nada! Nada!"
Nesse dia subiu num grande galho
Nunca mais o barão pisou na terra
[...]
Soube nessa madrugada do homem
Que não quis os minérios do pai
E não quis os segredos farpados da mãe
Subiu numa planta, no alto da pedra
Bem perto daqui,
E ficou por lá."

Album: Transfiguração (2006)
Obra: O Barão nas Árvores (Ítalo Calvino, 1957)
Ouça:


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3. Moon over Bourbon Street - STING

Sting se inspirou no livro "Entrevista com o Vampiro" para compor essa música. O livro inicia-se com um jovem repórter entrevistando Louis, e este conta sobre sua vida antes de se tornar vampiro, como se transformou, como conheceu Lestat, a vampira Cláudia e Armand. Fala também de suas viagens e reflete sobre vários assuntos como a imortalidade.

Album: The Dream of the Blue Turtles (1985)
Obra: Interview with the Vampire (Anne Rice, 1976)
Ouça:


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2. A revolta dos Dândis I - ENGENHEIROS DO HAWAII
















A banda Engenheiros do Hawaii tem em suas músicas diversas referências e significados. Poderia ser feita uma lista somente com as suas inspirações literárias e suas letras profundas. Essa é minha banda favorita, por isso os primeiros lugares ficam pra ela! rs
Essa música, do álbum homônino de 1987, é inspirada no livro "O Estrangeiro" de Camus. O romance conta a história de um narrador personagem, Meursault, um homem vivente que então comete um assassinato e é julgado por esse ato. Durante a narrativa, o personagem - sendo um homem indiferente - reconhece a indiferença do mundo.

"Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: 'Mãe morta. Enterro amanhã. Sinceros sentimentos.' Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem." (parágrafo inicial)

Essa indiferença é retratada na música:
"Eu me sinto um estrangeiro
Passageiro de algum trem
Que não passa por aqui
Que não passa de ilusão..."


Álbum: A Revolta dos Dândis (1987)
Obra: O Estrangeiro (Albert Camus, 1942)
Ouça:


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1. Dom Quixote - ENGENHEIROS DO HAWAII














O protagonista da obra é Dom Quixote, um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão por muita leitura de romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis preferidos. Engenheiros do Hawaii fizeram a música, destacando-se:
"Muito prazer me chamam de otário
Por amor às causas perdidas.
Tudo bem, até pode ser
Que os dragões sejam moinhos de vento
Tudo bem, seja o que for
Seja por amor às causas perdidas"


As vezes também me sinto assim... Lutando por causas antigas, perdidas, gastas, mas continuo lutando mesmo assim.
Álbum: Dançando no campo minado (2003)
Obra: Don Quijote de la Mancha (Miguel de Cervantes y Saavedra, 1605).
Ouça:


Esta foi a minha seleção! 
16 de julho de 2013
NA ESTRADA




Pra ler, ouvindo: 


No carro, 
voltando pra casa,
em boa companhia. 
Cansados, 
em silêncio, 
era entardecer. 


Engraçado. O silêncio pode ser íntimo ou forasteiro, confortável ou perturbador. Não é bom ou ruim por natureza...
Ali na estrada, chão após chão, horizonte e cheiro de asfalto, o silêncio nos permitiu conversas reais e intensas. Intimidade e conforto em sua forma mais presente, contemplativa.

[ estávamos emudecidos por fora, verbo vivo por dentro ].


Olhávamos para os contornos das árvores secas de inverno, que pregadas nos vales verdes, encostavam-se na Rodovia. Reparávamos em todas as cores que o céu desenhava: espetáculo que impressiona com seus roxos, azuis, alaranjados e mais, mais, mais...

[ estávamos emudecidos pelos colos, abraços, carinhos e risos ].





De vez em quando alguém dizia: "Que lindo isso" e nesse consentimento, não sei se passamos minutos ou horas, mas tanto faz.
Naquele cenário tão cotidiano, voltando de uma viagem que poderia ser comum, experimentei mais uma vez nossa sintonia, pois estávamos juntos vendo algo além.

[ estávamos emudecidos pelo encontro ].


Recordo este instante, nomeio nosso “além”.
Sinto que estávamos aproveitando ao máximo esse espaço onde podíamos simplesmente ser. Sentíamos o afeto gratuito que nos preenche, independente do que temos a oferecer, do que dizemos, do que fazemos...

[ estávamos emudecidos pela certeza ].

De que nos conhecemos sem julgamentos, de que podemos compartilhar segredos, pensamentos profundos ou bobagens triviais com a mesma confiança. De que podemos inclusive, nos entregar de alma sem perder nenhum pedaço.


[ estávamos emudecidos pela liberdade ].



Tantas pessoas já olharam pra nós com pressa demais, tentaram nos ler como se fôssemos uma tirinha de gibi de três quadros... Que fiquem com suas construções rasas e idéias insossas, enquanto a vida segue fervendo de sabor. A verdade é que somos seres inteiros, independente da velocidade dos olhares, independente dos recortes que fazem da gente.

[ estávamos emudecidos pela simplicidade desconcertante da vida ]. 



Para Alexandre, Catarina e Beatriz.
4 de fevereiro de 2013
Fado e Vela




Num sobressalto, a vela sobre a mesa de madeira quis ser a lâmpada lá do alto do mezanino.
Já não queria mais estar presa à superfície plana: almejava, enfim, contato com a eletricidade que parecia tão surreal e mais que tudo, queria se ver livre da sensação de ser a última escapatória: nas noites chuvosas, quando acaba a luz da cidade, então as pessoas recorrem a acendê-la, brincam de adivinhar sombras nas paredes e passado algum tempo, ainda reclamam da pouca luz que ofusca. Pois era só a luz voltar para que a deixassem no seu posto de destino irrevogável: prisão à superfície.
Estava decidida: “Quero ser lâmpada”.
Desde então se tornou cera vazia, cera triste... Escorrendo tão devagar, quase falida.
Eis que a lâmpada queimou e jogaram-na no lixo, despudoramente. Fado.
A vela se sentiu ruborizada de tanto disparate: enquanto passou dias a fio negando sua natureza, não pôde perceber que suas marcas de cera ficariam para sempre, grudadas na madeira. 


(publicado na Revista Minguante - 2008)