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lá na origem

Quando nasci um anjo engraçado
desses que mostram a língua
e piscam com um olho só, proclamou:
vai administrar vulcões. Coisa que não dá muito pra planejar,
porque erupções não avisam quando chegam.

Vou bem no ofício, suspeito
apesar da pressão de cuidar
de coisa perigosa assim.
Pelo menos meus vulcões são próprios,
nunca alugados,
e entre uma lava e outra,
acho graça do calor.

A mulher por dentro da pele
já viu muito e ainda se comove.
Ora sim, ora sempre
desacelera para contemplar.
Lá na origem, a narrativa.
Que na ancestralidade,
dava cor ao cotidiano
onde, se muito faltava
- a palavra sobrava.

O sangue foi vindo,
a força também,
porque entre mulheres ela não se dilui.
Amplifica, desde minha mil avó.


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Corruíra

Para ler ouvindo:
Sei quase nada de passarinhos.  Eles sabem quase nada de mim também.  Somos um para o outro, puro mistério, doce dúvida, mútua surpresa... Ainda assim, sinto-os tão perto. Ouço-os tão fundo. Amo-os tão largo! Toda manhã quando a corruíra canta, é como se reinasse absoluto sentido, depois da longa e impetuosa atmosfera onírica. É como se o meu espírito tivesse som e minha alma, asas.  Nesse prelúdio da Revolução, a corruíra canta a liberdade, celebra a convivência, veste-se de simplicidade... Existe. Pura e grandemente. Onde moram as corruíras? O que elas fazem pra sobreviver? O que as corruíras querem comprar? ... Elas não sabem não, mas me ensinam cada vez mais a perguntar menos.

Acho graça nisso. Gosto de pensar que nem toda tecnologia do mundo, nem a máquina mais inteligente, é capaz de criar uma corruíra. Me conforta e esquenta o coração.
Gosto de pensar que as corruíras não se preocupam com a morte, ou com o medo, ou com o tédio, porque são vivas, confiam e ousa…

Incontáveis problemas que você me causou

Não sei, sinceramente, o que a natureza tinha na cabeça quando criou você.
Você é escandalosamente bonita de chinelo e camiseta larga. Você é absolutamente natural e exclusiva. Seus traços não me lembram ninguém, não dá pra fazer nenhuma referência a você, nenhuminha. Veja só quantos problemas você trouxe pra minha vida, estranho ser humano: se me perguntarem, nunca vou conseguir explicar quem você é, nem comparar recorrendo ao "ela se parece com...", você NÃO SE PARECE COM NADA, dá pra acreditar?
Eu queimo de raiva porque agora fico procurando a dobra dos seus olhos em todos os olhos por aí e nenhum deles me emociona o suficiente.
Você não gosta de pintar boca, nem de colorir os olhos e com essa pomposa simplicidade tão sua, seus traços ficaram definitivamente marcados em mim. Deve ser porque você se basta. As outras pessoas se poluem com tanta informação que não consigo enxergar elas direito. Você se mostra. Se expõe. Se é.
Tem outra coisa que me desconcerta: isso de você…

5 músicas baseadas em livros

Muitos intérpretes e compositores se inspiram em obras literárias para fazer suas músicas. Aqui compartilho cinco (das minhas preferidas) canções baseadas em livros. Escolhi estas por gostar muito das obras e/ou das bandas. Espero que gostem!


5. Lord of the Rings - BLIND GUARDIAN

Esta música da banda alemã BLIND GUARDIAN foi baseada no livro "O Senhor dos Anéis" (pt) escrito pelo escritor, professor e filólogo britânico J. R. R. Tolkien. Esta é a obra da minha vida e essa canção marcou minha adolescência... Memória afetiva total! Cada vez que ouço recordo das batalhas, da narrativa, enfim... Épico.

VIVA LOTR!

Album: Tales From the Twilight World (1990)
Obra: Lord of the Rings (J. R. R. Tolkien, 1954)



4. Sobre as folhas (Ou O Barão nas árvores) - CORDEL DO FOGO ENCANTADO

A banda pernambucana se inspirou na história de Cosme Chuvasco de Rondó - o filho primogênito do barão de Rondó que, em 15 de junho de 1767 revolta-se contra seus pais e sobe às árvores, para de lá nunca mais de…

na estrada

No carro,  voltando pra casa, em boa companhia.  Cansados,  em silêncio,  entardecer. 
Engraçado. O silêncio pode ser íntimo ou forasteiro, confortável ou perturbador. Não é bom ou ruim por natureza... Ali na estrada, chão após chão, horizonte e cheiro de asfalto, o silêncio nos permitiu conversas reais e intensas. Intimidade e conforto em sua forma mais presente, contemplativa.
estávamos emudecidos por fora, verbo vivo por dentro }
Olhávamos para os contornos das árvores secas de inverno, que pregadas nos vales verdes, encostavam-se na Rodovia. Reparávamos em todas as cores que o céu desenhava: espetáculo que impressiona com seus roxos, azuis, alaranjados e mais, mais, mais...
estávamos emudecidos pelos colos, abraços, carinhos e risos }
De vez em quando alguém dizia: "Que lindo isso" e nesse consentimento, não sei se passamos minutos ou horas, mas tanto faz. Naquele cenário tão cotidiano, voltando de uma viagem que poderia ser comum, experimentei mais uma vez nossa sinto…

Fado e Vela

Num sobressalto, a vela sobre a mesa de madeira quis ser a lâmpada lá do alto do mezanino. Já não queria mais estar presa à superfície plana: almejava, enfim, contato com a eletricidade que parecia tão surreal e mais que tudo, queria se ver livre da sensação de ser a última escapatória: nas noites chuvosas, quando acaba a luz da cidade, então as pessoas recorrem a acendê-la, brincam de adivinhar sombras nas paredes e passado algum tempo, ainda reclamam da pouca luz que ofusca. Pois era só a luz voltar para que a deixassem no seu posto de destino irrevogável: prisão à superfície. Estava decidida: “Quero ser lâmpada”. Desde então se tornou cera vazia, cera triste... Escorrendo tão devagar, quase falida. Eis que a lâmpada queimou e jogaram-na no lixo, despudoramente. Fado. A vela se sentiu ruborizada de tanto disparate: enquanto passou dias a fio negando sua natureza, não pôde perceber que suas marcas de cera ficariam para sempre, grudadas na madeira. 

(publicado na Revista Minguante - 200…

sonhos lúcidos

menina marota, sonhei contigo.
na fantasia eras tão jovem, como do jeito que te conheci. como do jeito que ficaste dentro de mim.
estavas sentada ao canto, com o olhar longe e os cabelos simetricamente arrumados.
{ agora o que sei a teu respeito? nem sei mais se perdes tantas horas do dia organizando as mechas morenas }
me pego pensando se ainda conservas contigo tuas convicções tão viscerais.
se ainda tens aquela mania de fazer piadas infames e virar de costas, fugindo de mim.
se tuas mãos continuam as mais macias do Universo ou se já se tornaram ásperas como um rosto que desacredita na vida.
mas principalmente: se continuas a confiar na tua escrita e, se ainda possuis um certo caderno de poesias.
{ espero que sim, pois me deste de herança em tempos remotos }

tua imagem é tão viva em mim.
lembro dos trejeitos, do perfume,
da juventude ardente, das roupas pretas,
da tua voz cantando pra mim e ao telefone na madrugada,
do violão doce, da lua, da calçada da minha rua e você correndo...